A criança apresentou-se com um aspecto cuidado e manifestou alguma dificuldade em manter o contacto ocular com o examinador, contudo foi possível estabelecer uma relação empática com a criança.
No decorrer da avaliação (...) evidenciou muita dificuldade em estar sentado, em focalizar e manter a atenção na tarefa pretendida e em cumprir as ordens solicitadas pelo adulto, mesmo após advertência. Apresentou uma exacerbada actividade motora aliada à impulsividade e interrompeu e sobrepôs, frequentemente, a sua voz ao discurso do adulto, na tentativa de dominar e conduzir as tarefas para as suas áreas de interesse.
Ademais, (...) apresenta uma baixa tolerância à frustração, rejeitando, por vezes, as actividades que percepciona como de “difícil concretização”, com receio de falhar ou não ser bem sucedido. (...)
A sua área mais forte prende-se com a aritmética, nomeadamente a representação mental de símbolos numéricos e pensamento associativo. Assim sendo, o M apresenta boas capacidades em manipular conceitos numéricos em situações que requerem a compreensão e utilização de números e das operações aritméticas elementares. A criança apresenta razoáveis capacidades de abstracção e raciocínio lógico (pensamento categorial, generalização e abstracção de conceitos).
Ademais, compreende situações sociais em abstracto e quando contrastado com as mesmas revela facilidades em decidir sobre como proceder.
O M apresentou razoáveis resultados ao nível das capacidades de visualização espacial e coordenação visuo-motora.
Também manifestou razoáveis capacidades de memória visual, memória auditiva e, por sua vez, memória de curto prazo.
Foi notório (...) pouca motivação face a tarefas de carácter repetitivo.
(...)
O M foi também avaliado na área perceptiva, com base nas matrizes progressivas coloridas de Raven, onde obteve um resultado de 27 pontos, valor que se situa no percentil 95. Este resultado traduz boas capacidades perceptivas visuais de raciocínio lógico não verbal.
Síntese
Da avaliação realizada em termos cognitivos, salientam-se boas capacidades, indicadoras de um bom potencial intelectual. De ressaltar que os resultados obtidos neste âmbito, apontam para um funcionamento intelectual médio tendo em conta a sua faixa etária (Q.I = 100).
Dos dados obtidos através da observação clínica, em conjunto com as informações fornecidas pela mãe e professora titular de turma, constata-se que o M apresenta comportamentos frequentes de desafio/oposição, impulsividade e hiperactividade, aliado aos problemas sociais. Ademais, tem dificuldades em terminar uma tarefa até ao fim, em obedecer às regras do adulto e encontra-se desmotivado para tarefas que exigem esforço mental mantido e que por sua vez, considera como “de difícil realização”. Também, com frequência, chama à atenção dos outros, fala alto, sobrepõe a sua voz à do adulto e culpabiliza os outros pelos seus erros.
Importa salientar que estes comportamentos e sintomas surgiram antes dos 7 anos de idade, encontram-se em mais do que um contexto (escolar, familiar e comunitário) e causam um défice significativo de funcionamento social da criança.
Pelo exposto, e tendo em conta os seus comportamentos, verifica-se que o M preenche os critérios de diagnóstico para uma perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção. Além disso, considera-se que esta perturbação é Tipo Predominantemente Hiperactivo-Impulsivo, na medida em que o Critério Hiperactividade-Impiulsividade está preenchido mas não o Critério Falta de Atenção, durante os últimos 6 meses.
Também, segundo o que foi descrito anteriormente, o M apresenta um comportamento agressivo, hostil e desafiante, que dura pelo menos há 6 meses. Por outras palavras, a criança com frequência 1) irrita-se, 2) discute com os adultos, 3) desafia ou recusa cumprir os pedidos ou regras do adulto, 4) culpa os outros dos seus erros ou mau comportamento, 5) aborrece deliberadamente as outras pessoas e 6) é rancoroso ou vingativo. Por se verificar que estes comportamentos ocorrem com mais frequência do que é tipicamente observado nas crianças de idade e nível desenvolvimental comparáveis, considera-se que o M preenche também os critérios de um outro diagnóstico, nomeadamente Perturbação de Oposição.
Assim sendo, considera-se que o problema do M se enquadra na esfera das Perturbações Disruptivas do Comportamento e de Défice de Atenção, na sua forma mais complexa, Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção, Tipo Predominantemente Hiperactivo-Impulsivo e, em simultâneo, uma perturbação de Oposição (DSM-IV, 2002). (...)
É estranho que mesmo tendo sido analisado todo o historial médico, familiar e pessoal do M, se tenha concluído que este é o quadro clínico (!). Estou espantada. Até admito que o meu filho por vezes manifeste alguma hiperactividade-impulsividade, mas essa hiperactividade-impulsividade está antes associada a uma outra patologia que nem sequer foi aqui referida.
Caramba! Este rapaz engana mesmo...